segunda-feira, setembro 29, 2008

No Canto da Sala...

Poucas coisas revelam tanto a nossa história como aquelas que se acumulam no ninho que construímos. Olhando-as, muitas vezes, temos a impressão de ler um diário composto por imagens reais, que clichê ou não, valem muitíssimo mais do que palavras.

É o que sinto quando acordo e sento na esteira, numa manhã preguiçosa de primavera. Imediatamente faço uma inspeção da estante gigantesca que temos na sala. Affairs to remember - me vem em mente.

Minha atenção é atraída para a gérbera amarela, hoje com pétalas abertas quase como se fossem cair, curiosamente inserida num vaso em acrílico transparente, dando a impressão de que está suspensa no ar sobre uma das prateleiras.

Ela faz parte da minha vida. Compro flores todos os sábados para colocar no centro da mesa e na prateleira da estante.

Há pouco mais de seis anos essa flor traduz a paixão que as plantas despertam em mim. Na estante, enquanto nos olhamos, ela parece dizer: "- olhe bem para mim e entenda que, na sua vida, muitos amores vieram e foram embora, mas um, duradouro, veio e ficou".

Na mesma prateleira da gérbera, está uma galinha verde com pintinhas brancas, devidamente rodeada de três pintinhos. É uma obra do artesanato de Porto de Galinhas. Comprei nas últimas férias. Ela está lá para lembrar-nos de um dia perfeito cheio de sol, carinhos, sorrisos, fotografias, aventura, mergulhos, leveza e planos...

Embaixo da galinha e da gérbera, estão seis taças de vinho tinto daquelas imensas, em vidro transparente e base de estanho. A aquisição foi há pouco mais de quatro anos, antes de decidir casar e depois de assistir Sideways. Essas taças expressam o desejo profundo de montar nossa casa do jeitinho que sonhávamos e a felicidade infinita que foi, para nós, conseguir realizá-lo.

No meio da estante, tem uma prateleira de DVD's, com filmes e seriados. O Box com as seis temporadas de Sex and The City ocupam lugar de destaque. Para minha surpresa, hoje elas não tentam mais me dizer que a vida de mulherzinhapoderosa.com supera toda e qualquer outra alegria.

Ao invés disso, me lembram o quanto é difícil - e vazia - a tentativa de corresponder a um estereótipo, qualquer que seja. Me forçam a perceber que sou feita de inúmeros pedacinhos que podem ser poderosos, frágeis, moderninhos, fúteis, independentes e outros nem tanto. Sex and The City é para mim sinônimo de uma viagem, iniciada há alguns anos, para um destino mais prazeroso ever...

Ao lado da TV, tem uma caixinha com a segunda temporada de um seriado de que aprendi a gostar com maridôncio. Ganhamos a primeira temporada, no natal, dos meus enteados. Estamos planejando a compra da terceira e quarta temporadas nos próximos dias.

Olhar as caixinhas com esses DVDs me faz lembrar tardes de domingo chuvosos [como ontem], em que assistimos juntos, a quatro horas de seriado, deitados abraçadinhos no sofá enquanto o mundo parecia explodir do lado de fora.

Olhar a caixinha me faz lembrar momentos em que estávamos em conflito com "nossa" ex-mulher e as crianças, e nos aconchegávamos no peito um do outro como se nos bastássemos e o resto fosse resto.

Só aquele instante importava.

Normalmente, no dia seguinte, ele ligava do trabalho dizendo que poucas vezes se sentiu tão em paz quanto naquela tarde chuvosa, agarrados no sofá. A caixinha destes DVDs traduz serenidade, pura e simplesmente. Essa fase, pelo menos por enquanto, passou. Ufa !!

Do lado esquerdo da estante, na prateleira de cima, tem uma bruxinha vestida com tonalidades diferentes de azul e verde, segurando uma vassourinha e com uma carinha que chega a assustar de tão feia. Ganhei de uma grande amiga numa viagem que fizemos à Itália, há sete anos. Dizem por lá que a bruxinha traz sorte quando ganhamos. Não teria outra forma de pensar nesse mimo, a não ser como uma prova de que, até hoje, gastei muito, mas ganhei muito também com minhas aventuras encantadoras. E esse é o maior luxo que pretendo manter até o fim dos meus dias, sozinha ou acompanhada, mesmo que isso signifique trabalhar 12h/dia, feriados e alguns finais de semana.

Na prateleira do meio, um porta retrato enorme. O maior da casa, provavelmente. Nele, uma foto em preto e branco registrada no nosso primeiro encontro.

A foto não é só um carinho. Ela serve para lembrar que, há quase uma década, encontrei alguém que sempre esteve ao meu lado. Alguém que posso acordar de madrugada, confessando estar perdida e contando meus pesadelos. Alguém que faz uma macarronada como ninguém, monta nossa mesa com toda pompa e circunstância, me chamando para almoçar sem motivo especial. A foto tamanho XXG na estante, me diz que Deus, em sua infinita sabedoria e generosidade, me mandou um anjo da guarda de carne e osso.

Minha estante, definitivamente, diz muito sobre toda a minha história. Não sei se estou num daqueles dias em que penso ver o copo meio cheio, mas tenho certeza de que ela sempre fala de coisas que eu adoro ouvir [e lembrar].

2 comentários:

Jéssica disse...

Obrigada pela visita!*____*

Volte sempre que quiser.;D
Adorei seus textos, são delicados, bem escritos e sensíveis. Lindo demais.

Abraço, parabéns pelo blog!

Isabella disse...

Nossa, Belle, qie lindo! Ia lendo e me perguntando onde vc ia com o texto. Que bom que tudo está bem : ) Fico feliz.

bjs