terça-feira, fevereiro 06, 2007

Na marra...

Escrevi hoje para uma grande amiga da turma do ballet. Descobri que na rua em que moro há pouquíssimo tempo, tem um estúdio de dança conceituadíssimo, e cheguei a me arrepiar quando passei na frente e li a placa ( sem exageros). Que vontade me deu de entrar e perguntar tim tim por tim tim os preços, os horários e as turmas para adultos. Mesmo sem tempo para mais nada, decidi que voltarei ao ballet e não jogarei fora os 20 anos que estudei com afinco.

Parada há seis anos, por causa do horário de trabalho e afins, me arrependo de não ter dado continuidade mesmo com o pouco tempo que me sobrava. Sempre fui muito disciplinada, e jamais continuaria na turma se não conseguisse frequentar diariamente, como sempre fiz. Por isso, saí. Triste demais, mas saí.

Hoje, passando pelo tal estúdio, fiquei pensando na conversa que eu tive com o A. " Tem coisas que devemos procurar abrir espaço na marra, ou corremos o risco de serem extinguidas das nossas vidas"... Foram as palavras dele que mais me chamaram atenção naquele momento, e que hoje, do nada, me vieram à tona. Pois é assim que estamos levando nossas vidas atualmente, na marra. Se tem algo que não se dilata espontaneamente, é o tempo, pelo contrário, cada vez se aperta mais, e a gente acaba extraindo tudo o que a gente quer da vida, assim, forçando um pouco ou um muito, para que aconteçam finalmente.

Dessa forma, seguimos na "night" - mesmo com medo da própria sombra. Saimos para jantar, para o cinema, para algum barzinho ou casa de amigos, colocamos um cd no carro e seguimos cantando com os vidros bem fechados, despistando as neuras e tentando estacioanr bem longe das estatísticas estampadas nos jornais.

Prometemos nunca mais telefonar para quem nos faz sofrer, mas sempre telefonamos. Ele atende, e implica, e a gente some, e ele chama, e a gente volta, e briga, e ama, e sofre, e ama, e ama, e desama, e termina, e quando parece que cansamos, que não há espaço para um novo amor, outro aparece, outro parto, começa tudo de novo, aquele ata-e-desata, o coração da gente sendo puxado pra fora. Aff...

Somos mágicos: vivemos 38h por dia, nove dias por semana, 16 meses por ano - com um salário microscópico, bolsos e cofrinhos vazios, e muita força de vontade. Conseguimos dar a volta ao mundo com meio tanque de gasolina, dormimos apenas cinco horas por noite ( o suficientes para mim), sonhamos acordadas o tempo inteiro. Saímos para um drinque com as amigas e voltamos para casa sóbrias, entrando em casa sem acordar ninguém - uma borboleta não seria mais leve. Lemos todos os livros do mundo nos intervalos das novelas e durante o futebol deles.

Paramos três segundos para olharmos o pôr-do-sol pela janela, telefonamos para nossos pais ao mesmo tempo em que respondemos o e-mail do chefe, e se alguém sorri prá nós, a gente se aproxima, se arrisca e renasce nesses momentos da vida. Porque se não for assim, será da casa-pro-trabalho, e do trabalho-pra-casa, deixando o tempo agir sozinho, esperando dilatações espontâneas como no momento em que um bebê está prestes a vir ao mundo. Como essas dilatações não acontecem, permanecemos ali, paralisados naquela mesma vidinha de sempre, lamentando o fim das aulas de ballet.

2 comentários:

Scarlett disse...

Que escrita fantástica. Cheguei até cá através do Blog "Ser Madrasta", pois também eu o sou.

Chego aqui e deparo-me com uma escrito fluída, enebriante e que nos agarra. Gosto de blogs que me entusiasmem ao ponto de ter a curiosidade de ler todos os post antigos.

O teu é desses. Além disso este ano é um ano importante para mim: faço 30 anos. Voltarei de certeza para "ouvir" todas as confissões de alguém de 30 anos.

Suricate disse...

Fico triste por te sentir triste, e sinto uma lágrima se formar como que rasgando minha alma por me sentir um tanto assim como você.
Perceber que a inércia é pior que a morte e que a quebra do movimento continuo é mais difícil que nascer de novo.
Um dia ainda verei teus olhos e nesse cruzamento poderemos medir nossas almas e entender o que é isso que nos mantém. E talvez perceber com a tristeza necessária que muito foi perdido, mas nem tudo.
Penso sempre em você.