Quem nunca sentou no chão e abriu aquela caixa enorme, cheia de fotos, cartas, bilhetes, anotações ou apenas cheia de memórias da sua adolescência? Quem nunca traçou um paralelo com o que pensa agora e o que pensava naquela época, com o que planejava aos 15 anos e o que efetivamente aconteceu? Que atire a primeira pedra! [ou que atire a primeira agenda, daquelas
bem pesadas...].
Aos quinze, toda adolescente que se preze, questiona o governo, a sociedade, a família, a sua sombra [afinal o negócio é questionar e dar sua opinião, sempre tão valiosa aos olhos adolescentes cheios de razão]. É a fase das convicções.
A convicção dos quinze anos é tão forte... "Farei assim, farei aquilo, serei isso, serei aquilo e nada me impedirá!". Tudo é tão pra ontem, que o imediatismo fica latejando, e o sofrimento toma proporções exageradas. Sempre magras demais ou gordas demais, sofríamos demais, chorávamos demais e ríamos com a mesma freqüência - podendo misturar os sentimentos e tudo acontecer ao mesmo tempo até - sem falar nas dúvidas quanto à profissão a ser escolhida [e nem pensávamos no possível arrependimento das nossas escolhas futuramente]. Escolher o que fazer para o resto da vida na instabilidade emocional dos meus quinze, dezesseis anos! Ai ai ai...
Enxergamos nas meninas de quinze anos o mesmo que fomos, com as variações da época, claro. Os traços peculiares da idade, como a descoberta, o exagero, o olhar absoluto, estão e sempre estarão presentes numa menina de quinze [ menina? Achávamos ou não achávamos que éramos mulheres prontas para a vida ?] Quinze anos depois, muito ainda é igual.
É inevitável não sentir um certo conforto na casa de trinta e cinco anos ao topar com a ansiedade e o medo de passar no vestibular, de perder a virgindade com o namoradinho do colégio, de viajar a primeira vez sozinha, e suspirar aliviada por saber que isso incomodou um dia mas passou. Achar graça por conseguir enxergar hoje que todo o turbilhão de emoções e de idéias passa em algum momento. Passa para dar lugar a outro turbilhão de emoções e idéias novas - mas tudo bem.
Ao conversar com uma menina de quinze anos enxergamos que os problemas mais sérios na vida dela, a gente também teve. Também achou que o mundo ia acabar porque tinha levado uma mega bronca em casa e ficou um mês sem sair, ou porque levou uma rasteira daquela criatura que você considerava sua melhor amiga [que ao final, você agradece à vida por ter tirado a infeliz invejosa do seu caminho].
As dúvidas lá dos quinze, foram substituídas por outras, nos dando uma imensa tranquilidade pois, se os problemas e dúvidas dos quinze se foram, oba!, os problemas e dúvidas dos trinta e cinco já, já, arrumarão suas malas para partir das nossas vidas, dando lugar aos questionamentos dos 40, muito provavelmente. Crescemos.
Crescemos sim. Uns de forma mais branda, outros de forma mais dolorosa, cada um teve seu processo e, hoje, inaugura outros novos. É bom demais saber que passados quase vinte anos, a gente começa a enxergar que nada é pra ontem, ninguém nesse mundo nasceu sob o manto da perfeição, tudo se torna mais flexível, mais relativo, as preocupações são outras e as nossas escolhas, feitas lá na adolescência ou nos vinte e poucos anos acabam fazendo parte do que somos, do que aprendemos a chamar de vida, fazem parte da nossa identidade, e se essas escolhas foram certas ou erradas, só o balanço dos próximos quinze anos irá nos dizer.
Cá entre nós, confesso que ainda me pego rindo e chorando, chorando e sorrindo, gargalhando até quando revejo minhas caixas arquivadas. Tudo ao mesmo tempo. Ainda bem.