Apesar de morar praticamente sozinha, minha geladeira vive cheia. Alguns produtos são consumidos no mesmo dia da compra. Outros, são consumidos parcialmente, mas acabam estragando por um motivo ou por outro. E por fim, tem produtos que vão do mercado para minha geladeira e dela para o lixo sem nenhuma escala - eu simplesmente esqueço que existem e estão à minha disposição.
O padrão da geladeira se repete no armário em que guardo minhas roupas, bolsas e sapatos. Geralmente possuem o mesmo destino: alguns são usados até a exaustão, outros eu uso uma vez e esqueço que os tenho, e de outros ainda, esqueço completamente.
Enquanto isso, abro o armário e me sinto culpada… Minha conta bancária não está vermelha ( não é o caso) mas me preocupo com o fato de comprar coisas que nem sempre são necessárias neste ou naquele momento.
Percebi que me faltam alguns limites. De uns anos para cá fiquei assim e não consegui mais programar nada a longo prazo. Por mais que eu programe a minha semana, acabo não cumprindo com mais da metade do que constava na minha agenda.
Não estou conseguindo me organizar como antes. Isso reflete na minha casa, na minha aparência e obviamente na minha saúde.
Vou ao mercado e, imaginando que consumirei tudo aquilo, faço compras que muitas famílias não fazem, para uma semana. Sem mencionar outros padrões destrutivos, financeiramente e fisicamente, como almoçar e jantar fora com freqüência (com a despensa e a geladeira repletas de produtos, que eu julgava indispensáveis para a minha sobrevivência naquela semana).
Já aconteceu de no final do mês, constatar que pelo menos quatro vezes por semana, almocei ou jantei em restaurantes carésimos - que as pessoas normais costumam freqüentar em ocasiões especiais. A falta de limites tem me agendado uma dor de cabeça mensal, que é a freqüência com que lido com os efeitos da fatura do cartão de crédito. Acredito que a pior coisa de não ter limites é perceber que as “conquistas” acabam sub-aproveitadas. Isso é ruim. Ruim demais.

Quando fulano não tem limite, não consegue curtir tudo o que conquistou. Fulano não valoriza o que conquistou após trabalhar um mês inteiro para receber aquilo ali. Não consegue saborear a promoção que recebeu da chefia, o aumento de salário, a conquista de um cargo importante...
Decidi fazer um balanço do mês que passou. Somei tudo, diminuí tudo, cheguei a um saldo. Fiz uma planilha. Apesar dos pesares, tenho esperança de contornar os problemas que, inconscientemente, me deixaram fora do ar nos últimos anos. Saí da linha, mas tenho sorte por constatar que sem abusos as coisas não só voltarão a ser como antes, como também atingirei um objetivo importante no final do ano.
Pela primeira vez de um tempinho para cá, me imponho limites sérios. Fixei um valor semanal que me permito gastar como quiser e com o que eu quiser. Não cheguei a sacar o dinheiro, mas somei todos os canhotos do cartão, para não ultrapassar o limite.
Com essa quantia, tenho que comer, me divertir, me deslocar para o trabalho e para casa, enfim…
Hoje, somando os canhotos do cartão, percebi que acabou o dinheiro da semana com uma saída de última hora para encontrar uns amigos. Em casa, abri a geladeira e descobri leite, cebola e queijo ralado, que viraram o melhor creme de cebola dos últimos tempos, incluindo os que comi em alguns restaurantes.
Minha missão até o final da semana, é sobreviver com o que tenho, gastando tudo o que acumulei em casa ( e não estragou). O clima será esse até dezembro, data marcada para um dos meus sonhos se concretizar. Estou conseguindo.
Meus limites, ou pelo menos alguns deles, estão sendo respeitados, por mim pela primeira vez em muito tempo. A sensação de tranquilidade que isso causa passa longe da idéia de privação. É tranquilidade por estar equilibrada e, ao mesmo tempo, feliz por todas as coisas que conquistarei a partir de agora.